1. Uma vida não tão perfeita

Enfim, as tão sonhadas férias chegaram. Com o lindo azul do céu e as ondas agitadas de Porto de Galinhas, Ana estava embaixo de um guarda-sol que sua irmãzinha carinhosamente apelidou de “arco-íris lalanja”. Com suas pernas compridas esticadas na areia e um sorvete delicioso de chocolate, ela se via com a mente distante.
Sua família estava se divertindo, mas ela não conseguia prestar atenção em mais nada ao seu redor. Não viu as pequenas conchinhas brancas com detalhes amarronzados que seu pai encontrou e também não reparou no mini-siri verde-claro que entrava em um pequeno buraco na areia, saía, jogava areia fora e ficava olhando para ela.
A família tentava falar com ela, porém sua comunicação era breve. Já no segundo dia de viagem, sua mãe lhe perguntou:
— Ana, você estava tão animada... Eu não entendo o que aconteceu com você, filha.
— Não é nada, mãe — disse asperamente.
— Mas, filha, o que está te magoando?
— Quero ficar quieta no meu canto!
— Bom dia, família linda! — disse o pai com um sorriso no rosto. — Hoje vamos à praia nadar com os peixes, quem está animado?
— Eu! — disseram a mãe e a irmãzinha, levando os braços no ar.
— E você, Ana? — perguntou o pai. — Quer tomar um açaí com seu velho?
— Talvez — disse ela.
— O que aconteceu com ela, querida?
— O de sempre, querido.
— Filha, você quer... — Ele foi interrompido por Ana, que abruptamente se levantou e disse:
— Vou para o quarto.
Ana sempre fugia das “conversas difíceis”. Todas as vezes que os pais iam falar com ela, tentando ajudá-la a ver as coisas por outra ótica, ela se isolava e pensava: "Que chatice, eles gostam de pegar no meu pé! Eu sempre sou a errada da história!".
A verdade é que este comportamento era antigo. Animava-se e ficava ansiosa com as coisas que ainda não haviam acontecido, porém, quando finalmente chegavam em suas mãos, deixavam de ser divertidas se alguém estivesse vivendo algo que ela julgava ser melhor.
Ninguém viu quando, no primeiro dia das férias, ela pegou o celular para postar uma foto no Instagram. A imagem era simples, porém cheia de significado. Suas delicadas mãos seguravam um sorvete de casquinha, sabor chocolate e, ao fundo, a areia branca e o mar com águas cristalinas de Pernambuco.
Mas, antes de postar a foto, resolveu dar uma curiada nas últimas atualizações do seu feed, quando de repente uma nova publicação de sua melhor amiga, Rachel, fez tudo ficar cinza e preto. A garota estava de férias na sua cidade natal, Nova York, com sua avó. Foram postadas a seguinte sequências de fotos:
Foto 1: O avião sobrevoando as nuvens.
Foto 2: Uma linda cafeteria e uma xícara branca, desenhada a mão com marshmallow e chocolate quente.
Foto 3: O belo jardim de margaridas da avó e ela a ensinando a plantar flores.
Foto 4: Um lindo urso de pelúcia marrom com orelhas e patinhas brancas.
Foto 5: A moça estava com uma tiara da Minnie, uma camiseta branca, shorts pretos, em um carro vermelho, com o namorado ao lado.
A legenda da publicação dizia: I love travelling and USA.
Aquilo foi como um soco no estômago de Ana. Por que Rachel podia ir à Disney e ela não? Por que sua amiga, que nem era cristã, tinha tudo o que qualquer adolescente sonhava, mas Ana, que servia ao Senhor, tinha sempre que esperar? Para ela, o clima de férias havia acabado ali mesmo.
Ao se deitar, depois de ter ficado com ódio da irmã — que jogou todo o seu creme corporal preferido no vaso sanitário — e com o pai, que a proibiu de continuar mexendo no celular, ela decidiu fazer uma oração silenciosa:
— Senhor, eu não aguento mais. Hoje, fiquei com vontade de andar naqueles buggys, sabe? Mas papai disse que era muito caro e, no momento, não temos condições. Depois, vi uma sorveteria linda, que é famosa no centrinho de Porto, mas mamãe fez os cálculos e disse que ia passar de 100 reais. O melhor, segundo ela, era comprar um pote de sorvete e assistir a um filme em família. Aff, que chatice… — Ana bocejou. — Eu invejo a Rachel. Agora ela está nos Estados Unidos, pode ir à várias cafeterias, tem um namorado lindo e não precisa ficar grudada na sua família.
— Ana — disse sua mãe —, hora de apagar a luz.
— Senhor — continuou sua oração — fale comigo. Eu preciso de ajuda, ninguém entende como eu me sinto e…
Antes que pudesse dizer as últimas palavras de suas preces, tudo ficou escuro. O que ela não imaginava é que Deus a tinha escutado — aliás, Ele sempre a ouvia. O silêncio do Senhor também era resposta, mas agora, ela tinha idade suficiente para entender uma lição valiosa que o Criador iria lhe ensinar. Parecia um sonho, mas na verdade era uma experiência sobrenatural, que marcaria sua vida para sempre.
— Onde estou? — disse Ana um pouco confusa.
A sua frente, apareceu uma mulher com o marido e cinco crianças pequenas: três meninos e duas meninas.
— Tudo está pronto: pães, azeite, manto… Acho que não esqueci nada. Venham, crianças! Hoje é dia de adorar ao Senhor e visitar o Samuel. Elcana, estou pronta.
— Então vamos!
— Uau! — a menina pensou. — Ela tem o nome igual ao meu, mas quem é ela? O que está acontecendo?
— Ela é a mãe do profeta Samuel e você está em Israel — disse uma voz serena e firme.
— Quem disse isto? — perguntou Ana com um pigarro na garganta.
— Não tenha medo, filha. Hoje você terá todas as suas perguntas respondidas.
E antes que ela pudesse contestar aquela voz, rapidamente foi transportada para um templo. O lugar transmitia paz, era organizado e tinha 3 compartimentos. Ela viu um senhor idoso e gordo, que falava com um jovem rapaz:
— Animado Samuel?
— Sim, senhor Eli. Não vejo a hora de abraçar a minha mãe, meu pai e ver meus irmãos e irmãs.
— Certo, certo. Vou à cidade, cuide de tudo por aqui, ok Samuel!?
— Sim senhor!
— Samuel, — disse o Senhor Deus, — Esta é a Ana!
— Olá Ana, você tem o nome igual ao da minha mãe.
— Muito prazer, Samuel, mas o que você faz aqui? Este é o seu trabalho?
— Na verdade, eu moro aqui, Ana. Quando minha mãe orava para ter um filho, ela prometeu ao Senhor que se Ele concedesse o desejo do seu coração, ela o entregaria ao Senhor por todos os dias da sua vida. E cá estou eu — disse Samuel com um sorriso gentil e satisfeito com a explicação que acabara de dar.
— Então, você não vive com sua família? — Perguntou a menina, surpresa com tudo isto.
— Não.
— Você não poderia, trabalhar durante o dia e dormir em casa, com sua família?
— Bom, eu — o rapaz foi interrompido ao ouvir uma voz conhecida.
— Filho, onde você está?
— Estou aqui mãe! Com licença, Ana, minha família chegou.
Ana parecia confusa. Como era possível um rapaz tão novo ser feliz em trabalhar no templo e viver longe de sua família? O que ela escutaria a seguir, a deixaria ainda mais chocada.
— Amanhã é o seu aniversário, né filho? Trouxemos estes presentes para você, — disse a mãe com os olhos marejados — Você sabe que eu te amo, né querido?
— Sim, mamãe. E eu também a amo — disse o rapaz com os olhos vermelhos e se segurando para não chorar.
— Filho, eu… — ela parou de falar quando o rapaz a abraçou fortemente e lhe disse:
— Mãe, a senhora fez o certo. Eu sou a pessoa mais feliz do mundo! Todos os anos posso vê-la, quando a senhora vem me visitar, e agora eu tenho mais irmãos e irmãs, a nossa família está crescendo. A vida aqui é corrida, mas ouvir a voz de Deus, aprender com o senhor Eli o ofício do sacerdócio e saber que tenho um futuro aqui, me deixa animado. Mãe, não se sinta culpada, porque a senhora me entregou a Yahweh, Ele tem cuidado de mim todos os dias. Eu não estou sozinho!
Agora quem estava chorando era a menina Ana. Passou um filme na sua cabeça sobre a sua vida e como ela maltratou sua família nos últimos dias. Se lembrou do pai orando por ela nas madrugadas e pela mãe que cuidava de todos, com seu dom na cozinha. E sua irmãzinha? Era apaixonada por ela e vivia atrás dela. Eles eram muito unidos, iam à igreja e viviam uma vida tranquila, apesar dos problemas diários no mundo.
Em seguida, Ana foi levada às nuvens, onde escutou uma voz, que lhe disse:
— Busque o fruto do Espírito Santo. — Em seguida, ouviu duas lindas vozes, uma feminina e outra masculina cantando — Vida, ah ah ah ah, Vida, ah ah ah
Agora Ana está novamente em seu quarto. Ao abrir os olhos eram 02h00 da madrugada. Deus falou com ela. Ela saiu da cama, dobrou os seus joelhos e disse: Obrigada por me responder, Pai. A minha vida não é ruim, acho que minhas lentes estavam embaçadas, ainda bem que tenho a Ti para clarea-las. Amém. Seu coração estava em paz. Ela se deitou novamente e dormiu tranquilamente.
Pela manhã, Ana se sentia leve: agarrou sua irmã em um abraço de urso e a encheu de beijinhos na bochecha, abraçou fortemente os pais e contou-lhes tudo o que Deus fez. O casal se entreolhou, como se soubessem que em algum momento isso iria acontecer. Os dias seguintes foram calmos e cheios de diversão para a família. Ana passou a buscar mais a Deus e a enxergar aquelas férias como um presente. Conseguiu aproveitar ao máximo cada momento.
Ter aquela família era mais do que qualquer viagem para o exterior que ela poderia fazer. Quando começou a estudar sobre o fruto do Espírito, conforme a orientação do Espírito Santo, conseguiu compreender que este fruto é o caráter de Cristo, produzido no cristão. Com ele, ela teria a ajuda necessária para ter domínio próprio, quando sua irmãzinha quebrasse algo, ser feliz mesmo que não tivesse todos os sapatos da moda e fé nos momentos de incerteza, por exemplo na escolha da sua profissão futura e qual faculdade fazer.
Ana aproveitou todas estas novidades espirituais e comprou um caderno que estava em promoção em uma lojinha e todos os dias escrevia o que aprendia ao ler a bíblia. Seu pai a ajudou a estudar mais um pouco sobre o fruto do Espírito, que está em Gálatas 5.22-23. A menina não mudou do dia para noite, mas seu comportamento dia após dia era mais maduro, seguro e contemplativo sobre a sua vida.
Passaram-se algumas semanas e chegou o dia do seu aniversário:
— Venha querida, vamos cantar parabéns.
— Estou indo mãe, — disse a menina que estava completando 17 anos. Pegou o celular para tirar algumas fotos e ao abri-lo, recebeu uma notificação do Instagram, com publicações de amigos próximos. Rachel postou algumas fotografias, feitas por um fotógrafo profissional.
Pela primeira vez, Ana não sentiu tristeza ou inveja da amiga, pelo contrário, se alegrou com a alegria da amiga e se sentiu satisfeita com a sua própria vida. Curtiu a publicação, felicitou a amiga e foi para a cozinha. Sua família a esperava com um delicioso bolo de kit kat, docinhos e salgados diversos. Eles oraram, cantaram parabéns, comeram e assistiram ao filme Beethoven.
Mais tarde, enquanto todos estavam na piscina se refrescando, ela olhou para os céus e recitou um texto que lerá pela manhã, que estava em Salmos 118.24:
— Este é o dia que fez o Senhor; regozijemo-nos, e alegremo-nos nele.
Fim

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